quinta-feira, 23 de novembro de 2023

A Posição Elevada da Consciência e sua Relação com o Perdão

 8. Voltando ao tema da posição elevada da consciência e a sua relação com o perdão

I.             [Repetindo o que já foi mencionado no capítulo número 4 (A Arte em forma de Trabalho), um dos principais objetivos da Oficina da Paz é mostrar ao leitor que é possível fazer um uso racional, inteligente e útil da dor. À medida que amadurecemos nossa dor interior, pela compreensão de suas causas, ela fica à disposição da consciência, para trabalhá-la. Ao obtermos uma consciência acima desta dor, ganhamos poderes sobre ela, e podemos traçar alguns objetivos para a utilização deste poder sapiencial, para, em sinal de retribuição pelo alívio alcançado, e caridade para com outros aflitos, reverter em mais consciência e Paz ao próximo, que sofre a dor e reage de modo inconsciente aos serviços do plano].

Ao tomarmos consciência da presença real do nosso mundo interior e, ao investigar como anda a saúde de nossa alma, verificamos alguns aspectos mais ou menos inerentes à condição do homem, que é a presença de uma dor, ou uma falta, uma ânsia, uma sensação de que algo está desordenado.

Considerando como certo - o caso de termos sido contaminados pelas setas inflamadas do plano nefasto, a parte a princípio mais inacessível de nossa alma: o que os psicólogos e analistas chamam inconsciente, acaba exigindo de nossa vontade a satisfação de determinadas necessidades que não são originadas a priori em nosso mundo interior, mas incutido nele, por essa janela lateral que os nossos sentidos abrem de maneira subliminar, inadvertidamente, despercebidamente, e essas setas acesas, embebidas em betume e enxofre, caem dentro da catedral de nossa alma, pondo fogo em toda nossa estrutura a partir de dentro.

Ao compreendermos, embora superficialmente, as causas mais comuns que nos levam ao estado de angústia e solidão, através dos modos de operação do plano, conseguimos entender alguns fenômenos, até outra hora apenas percebidos difusamente, acerca do incêndio calamitoso e progressivo que ameaça nossa existência interior e física.

No instante em que atingimos alguma consciência do que se passa dentro, tomamos, em decorrência, alguma posse da situação e podemos começar a traçar um “contraplano”, com intuito de apagarmos o incêndio o mais rapidamente possível. Isso significa detectar a brecha e impedir que as setas inflamadas atravessem a barreira do nosso inconsciente. Tomar consciência dos métodos usados de forma sub-reptícia para nos infligir males já é fechar janelas laterais que outrora permitiam a entrada de mais fogo. Tendo cessado, ao menos nesse primeiro instante, a penetração de mais dores, já sentimos um alívio interior. Nosso edifício já se torna menos quente, menos urgente, o que nos dá mais tempo para avaliar o estrago e pensar em como eliminar as muitas chamas internas que ainda teimam em arder.

Retornando à metáfora da cela fria e úmida (mencionada no capítulo 4), quando a consciência do nosso prisioneiro interior enxerga a dura realidade de sua própria cela, já não é apenas um encarcerado passivo resmungando sua miséria, mas já é um agente ativo planejando a sua fuga. Ao estudar os cantos de sua inconsciência, acaba vislumbrando do outro lado do corredor, celas também frias e úmidas, muitas vezes infestadas de ratos, assombradas por inúmeros outros desastres espirituais, os quais, em comparação, fazem da sua condição anteriormente miserável um verdadeiro oásis.

Nesse novo estágio de consciência, mais amplo e mais distante, adicionamos largura e comprimento ao nosso olhar (visão 2D). Podemos ter a bondade da compaixão com o próximo que sofre, mesmo sem conhecer os motivos que levaram aquela alma àquele cárcere, sabemos que o frio úmido e a solidão são uma realidade bem presente de todos os moradores da masmorra. Ao depararmos com uma pessoa no mundo exterior, aparentemente livre, agindo e reagindo aos estímulos da vida, de modo menos ou mais inconsciente, já podemos contemplá-la com os olhos do prisioneiro consciente.

A primeira coisa que o prisioneiro enxerga são os detalhes sutis, não os mais aparentes. Logo, não é pelas palavras que se julga uma alma displicente, mas pelas suas atitudes e seu nível de consciência em relação ao seu próprio mundo interior (sua própria cela). Ao prisioneiro mais antigo de cadeia, bastam alguns poucos minutos de observação e escuta (ou conversa direta), para verificar nela o quanto de seu próprio incêndio aquela pessoa tem noção, e do tanto que tem posse de sua situação interior.

Partindo do pressuposto que os dardos acesos do plano nefasto atuam incansavelmente sobre todos os viventes, basta conhecer um pouco do método, e isto já é o bastante para notarmos o quanto aquela alma aflita foi acometida pela parasitagem inconsciente que suja, empesteia e escurece sua cela.

Essa recém-adquirida "visão do invisível" nos confere alguns poderes muito delicados, nos permitem adquirir virtudes, que atuam como partes de uma armadura, muito úteis para essa batalha travada nas “regiões celestes”.

A primeira virtude que pode e deve ser usada a partir dessa nova consciência é a compaixão. Ao notarmos no mundo visível o desespero invisível em que se encontra uma alma aflita, temos a obrigação moral de alertarmos aquele prisioneiro inconsciente, por pura caridade. Um gesto de retribuição pelo alívio que você mesmo alcançou com o estancamento do aumento do incêndio. Uma coisa boa assim deve ser desejada por todos.

 

“Aquilo que você deseja que seja feito contigo, vá e faça também ao próximo”.

(Jesus Cristo)

 

Impressionantemente, no mesmo instante em que você age com a intenção de acalmar a dor alheia, se o seu empreendimento for feito com pureza de coração, com a genuína vontade de aliviar o sofrimento de uma alma aflita (ainda que ela não reconheça ou não dê ouvidos aos seus alarmes), nesse instante você começará a notar que chamas que ainda permaneciam acesas dentro de sua catedral lentamente se apagam...

Eis o milagre da caridade!

Somente quando trabalhamos pela causa da miséria alheia, aprendemos a curar profundamente as nossas próprias misérias. É um sistema de compartilhamento inteligente, em que, quanto mais se partilha, mais se multiplica. O alívio que traz a Paz é como a multiplicação do pão, de alguns poucos pedaços, alimenta-se a multidão, e ainda são recolhidos cestos do excedente.

Mas ainda não tocamos no tema propriamente dito. Você poderá se perguntar, o que toda essa questão de conhecimento do método nefasto e da consciência da própria cela e das celas adjacentes pode ter a ver com o perdão?

II.            A coisa é mais óbvia do que parece... Ora, se uma alma desesperada e aflita, agindo e reagindo aos estímulos do plano de modo inconsciente, querendo sensações e coisas e depositando valores onde não se deve, acaso vier a agir ou reagir de forma bestial, irracional, como um animal acuado e selvagem (adestrado e programado para fazer exatamente isso), qual o grau de responsabilidade deve-se atribuir àquela pessoa à sua frente? Muitas vezes, algumas almas chegaram a um ponto tão degenerado, que a única coisa que elas ainda podem racionalizar é o perdão. (Sobre o poder do perdão, ver vídeo no link abaixo).

https://youtube.com/shorts/YnRsI9oSyzA?si=c4P7elDRrc5Ok3Mp

O Perdão é algo tão poderoso, é uma luz tão intensa, é um dom que vem de tão alto, que é como se o Sol nascesse bem dentro da nossa cela, espantando ao mesmo tempo todas as sombras, todas as lesmas, pondo abaixo todas as grades, paredes e correntes que desde o princípio pesavam sobre a nossa existência.

O perdão é uma luz que não se guarda no bolso, é um pão que não se come sozinho, para atingir os seus efeitos deve sempre agir em direção ao outro, e no exato instante em que cumpre seus objetivos no seu destino, toda a sua origem é confeitada. É um movimento onipresente, uma flecha de luz que parte em todas as direções, que ilumina o coração do alvo e do arqueiro.

Adicionando finalmente a dimensão da altura nesta nossa ampla-visão da alma, atingimos o próximo estágio da consciência em 3D, em que o antigo prisioneiro, libertado pelas chaves da caridade e do perdão, tendo um sol iluminando seus caminhos, agora escala os muros da prisão, toma o posto do sentinela que fica na torre donde do alto se avista todo o presídio, lugar privilegiado de onde, ao mesmo tempo, se pode descer e sair do esconderijo, indo ao convívio dos cativos, ou subir e contemplar do camarote todas as celas, observar e absorver a lógica penitenciária, padrões de movimento e isolamento, os quais regem todo o funcionamento daquele mundo frio, que ainda é o seu, porém distante.

III.          Ao escolhermos fazer o movimento de subida na torre, para a contemplação das misérias humanas, percebemos que um novo poder se desvela, como uma nova parte da armadura de que vamos nos vestindo para a batalha. Esse poder é o da viagem no tempo e da modificação da história.

A visão do sentinela percorre outra vez caminhos conhecidos, corredores, alas, antigas celas, cubículos escuros de nossa memória. Ao exercermos o poder de relembrar acontecimentos que marcaram a vida de nossa alma, no ato mesmo de recordar revivemos, agora revestidos de uma consciência toda nova, com uma armadura projetada para alguns embates sangrentos, tendo em mãos a chave do perdão e da compaixão pelas misérias alheias, percebemos o surpreendente poder de mudarmos a história que a nossa antiga consciência contava para nossa alma.

Esse poder majestoso, uma dádiva anunciada aos quatro ventos evangélicos, porém por muito poucos aproveitada, é a oportunidade para sanear vidraças estilhaçadas, bancos quebrados, telhas arrancadas, paredes mofadas da catedral. O agente ativo da nossa nova consciência viaja no tempo-espaço da eternidade em que vive a nossa alma, e pode perdoar a si mesmo e a outros, pois entende que tem a capacidade de restaurar para sempre o estrago que nos foi praticado pelos aflitos agentes inconscientes agora já perdoados.

Veja aqui que não se trata de mentir para si próprio, alterar verdades, fingir que determinados fatos não ocorreram. Tudo o que é ato está consumado na eternidade. Nada do que veio à esfera da existência poderá inexistir. Portanto, o que se propõe aqui é explorar outras potências no entorno deste ato, que ainda não foram totalmente realizadas na esfera da existência e que não deixam de ser a periferia verdadeira de um fato. Potências estas prontas para ser consumadas em ato pela nova dotação da consciência, mais compreensiva para abarcar detalhes e possibilidades antes inabarcáveis pela condição outrora menos expandida e mais embrutecida da mesma consciência.

É como se o carpinteiro, anos depois de terminar seu trabalho de transformar madeira em arte, com um novo olhar pudesse notar certas arestas mal-acabadas e formas ainda pouco desenvolvidas. Detendo maiores habilidades do que quando produziu aquela peça, pudesse agora acabá-la com ainda mais dignidade, sem contudo fazer da obra outra coisa senão ainda madeira e arte. O artista da alma não vai atear fogo ao tronco burilado, nem o fazer deixar de existir. Aperfeiçoará, entretanto, os detalhes de uma coisa tida como já acabada, de modo que suas potências possam ser totalmente realizadas. Essa é a beleza do mundo do infinito.

Eis A Oficina da Paz!

 

(Encontraremos ainda oportunidade

para falar com calma

do maior mestre carpinteiro,

aquele motor primeiro,

que nos ensina o ofício de esculpir a alma)

 

(Mais adiante falaremos sobre o mundo fora dos muros da prisão e sua relação com a lenda da Floresta - e o perdão divino sobre o estrago que nós mesmos praticamos – e devemos pedir perdão em nome de nossa antiga consciência, para a Paz com Deus);

Nenhum comentário:

Licença Creative Commons
This work is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 2.5 Brasil License