quarta-feira, 27 de março de 2024

AQUELE EU



Estou suspenso, Senhor, como um recém-nascido desfalecido de sono e inteiramente entregue em teus braços estendidos, que me sustêm.

Quero fazer força de ir ao teu encontro, como num soberbo movimento que de nada vale, pois que minhas mãos estão presas ao meu corpo e o céu é tão distante. Meus dedos não comunicam nada além de gracejos infantis, mas o céu me comunica tanto.

Sei, e sinto que sei, e vejo o momento de minha concepção no mais absoluto silêncio e escuridão, aquele momento em que minha alma foi plasmada para, como explosão em luz, se abrir e abraçar o universo. Sei que minha alma é infinita, pois, eis que de Ti foi que fluiu, sou filete de água imaculada que brota da fonte de todas as águas eternas de um oceano inconcebível para uma mente.

Sei, e sinto que sei, que minha pusilânime alma sendo reflexo em grão do magnânimo Sol que é Teu ainda assim é grande para abrigar o cosmos. Já me resta claro que tudo o que existe para ser (re)conhecido cabe dentro de mim, que sou isto que nasceu de ti e que se expandiu para encampar os céus e o mundo.

Sei também que os maus pensamentos dos homens e meus insistentes desejos são como colheres de enxofre que bebem a sopa pura da vida de minh’alma.

Quero estar em Ti como desde o princípio, Pai meu. Passei longos anos andando em círculos concêntricos e miúdos e a força centrípeta que me atraía a mim era centrífuga de Ti. Até que, regenerando-me arrependido, Te vi em mim, e a batalha sangrenta para achar a estrela do oriente orientou-me de volta ao princípio de mim.

Todo ser tem em Ti a sua existência e ao perceber isso pude cair de sono, não mais em calçadas frias, mas em teu braço, e finalmente repousei. Posso agora sofrer calado ou amar e sorrir, pois minhas pupilas, como estrelas ainda negras, ávidas de Tua luz que a engolem, tem um sentido e uma direção. Meu coração é uma flecha que não deseja errar o alvo. Ao longo das eras, um grau de erro me levaria para fora do calor do Sol da Justiça e isso me seria o frio da solidão.

Mas o arco do céu foi torcido para que meu pensamento fosse destorcido. As posições das constelações que me serviam de fadado destino no dia do meu nascimento foram realinhadas para a noite do meu novo-nascimento, o fim da amnésia, o resgate daquela lembrança de onde o meu Eu veio.

Foi pelo mergulho nas profundezas da dor absurda e irracional por causa daquelas saudades do infinito, quando, nadando para longe da Salvação, aspirei e bebi o ar metálico e as águas do mal salgado, debatendo-me sem Paz, sem ar e sem vento, tendo os lábios molhados de tudo o que me fazia mais sede, na inanição de um deserto úmido, que meu Pai me chamou das trevas para a sua maravilhosa Luz. “Desperta, tu que dormes!”

Teve pena daquele infantil pesadelo. Despertou-me para que eu chorando por fora deixasse de chorar por dentro. Vestiu-me de roupas limpas e me calçou chinelos, esticou meu dedo e nele escorregou para sua base um ansioso anel, um símbolo indelével que me servirá de passagem para finalmente adentrar a porta que leva os humildes machucados às águas que saram, meu concreto batismo e o supremo nascimento. Voltar a existir Contigo naquele Amor em que nada é alheio e imperfeito.

Mas, enquanto ainda me deito no leito do teu colo, firma-me no fiel sentimento de que nada sou, o que sonhei foi só um defeito, o despertar foi um alívio e que de outro sonho carnal ainda acordo, quando o teu Amor de Oceano me convocar naquele último mergulho, agora sim, em direção ao tudo, matar a morte e as saudades daquele existir infindo, abraçar-me e ser por Ti abraçado, como gota gelada que caiu das alturas do céu ao aguardo do mar de braços abertos, meu Jesus na cruz, meu amor, meu grande amigo, meu lindo eu, que saudades.

Perdoa-me pelo que sonhei que fui.

Chama-me brevemente. Agora sei que estou no aguardo.

Abriga-me para sempre em Ti.

Te amo.

Ass.,

Aquele Eu.

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