8. Voltando ao tema da
posição elevada da consciência e a sua relação com o perdão
I. [Repetindo o que já foi mencionado no capítulo número 4
(A Arte em forma de Trabalho), um dos principais objetivos da Oficina da Paz é
mostrar ao leitor que é possível fazer um uso racional, inteligente e útil da
dor. À medida que amadurecemos nossa dor interior, pela compreensão de suas
causas, ela fica à disposição da consciência, para trabalhá-la. Ao obtermos uma
consciência acima desta dor, ganhamos poderes sobre ela, e podemos traçar
alguns objetivos para a utilização deste poder sapiencial, para, em sinal de
retribuição pelo alívio alcançado, e caridade para com outros aflitos, reverter
em mais consciência e Paz ao próximo, que sofre a dor e reage de modo
inconsciente aos serviços do plano].
Ao tomarmos consciência da
presença real do nosso mundo interior e, ao investigar como anda a saúde de
nossa alma, verificamos alguns aspectos mais ou menos inerentes à condição do
homem, que é a presença de uma dor, ou uma falta, uma ânsia, uma sensação de
que algo está desordenado.
Considerando como certo - o caso
de termos sido contaminados pelas setas inflamadas do plano nefasto, a parte a
princípio mais inacessível de nossa alma: o que os psicólogos e analistas
chamam inconsciente, acaba exigindo de nossa vontade a satisfação de
determinadas necessidades que não são originadas a priori em nosso mundo
interior, mas incutido nele, por essa janela lateral que os nossos sentidos
abrem de maneira subliminar, inadvertidamente, despercebidamente, e essas setas
acesas, embebidas em betume e enxofre, caem dentro da catedral de nossa alma,
pondo fogo em toda nossa estrutura a partir de dentro.
Ao compreendermos, embora
superficialmente, as causas mais comuns que nos levam ao estado de angústia e
solidão, através dos modos de operação do plano, conseguimos entender alguns
fenômenos, até outra hora apenas percebidos difusamente, acerca do incêndio
calamitoso e progressivo que ameaça nossa existência interior e física.
No instante em que atingimos
alguma consciência do que se passa dentro, tomamos, em decorrência, alguma
posse da situação e podemos começar a traçar um “contraplano”, com intuito de
apagarmos o incêndio o mais rapidamente possível. Isso significa detectar a
brecha e impedir que as setas inflamadas atravessem a barreira do nosso
inconsciente. Tomar consciência dos métodos usados de forma sub-reptícia para
nos infligir males já é fechar janelas laterais que outrora permitiam a entrada
de mais fogo. Tendo cessado, ao menos nesse primeiro instante, a penetração de
mais dores, já sentimos um alívio interior. Nosso edifício já se torna menos
quente, menos urgente, o que nos dá mais tempo para avaliar o estrago e pensar
em como eliminar as muitas chamas internas que ainda teimam em arder.
Retornando à metáfora da cela
fria e úmida (mencionada no capítulo 4), quando a consciência do nosso
prisioneiro interior enxerga a dura realidade de sua própria cela, já não é
apenas um encarcerado passivo resmungando sua miséria, mas já é um agente ativo
planejando a sua fuga. Ao estudar os cantos de sua inconsciência, acaba
vislumbrando do outro lado do corredor, celas também frias e úmidas, muitas
vezes infestadas de ratos, assombradas por inúmeros outros desastres
espirituais, os quais, em comparação, fazem da sua condição anteriormente
miserável um verdadeiro oásis.
Nesse novo estágio de
consciência, mais amplo e mais distante, adicionamos largura e comprimento ao
nosso olhar (visão 2D). Podemos ter a bondade da compaixão com o próximo que
sofre, mesmo sem conhecer os motivos que levaram aquela alma àquele cárcere, sabemos
que o frio úmido e a solidão são uma realidade bem presente de todos os
moradores da masmorra. Ao depararmos com uma pessoa no mundo exterior,
aparentemente livre, agindo e reagindo aos estímulos da vida, de modo menos ou
mais inconsciente, já podemos contemplá-la com os olhos do prisioneiro
consciente.
A primeira coisa que o
prisioneiro enxerga são os detalhes sutis, não os mais aparentes. Logo, não é
pelas palavras que se julga uma alma displicente, mas pelas suas atitudes e seu
nível de consciência em relação ao seu próprio mundo interior (sua própria
cela). Ao prisioneiro mais antigo de cadeia, bastam alguns poucos minutos de
observação e escuta (ou conversa direta), para verificar nela o quanto de seu
próprio incêndio aquela pessoa tem noção, e do tanto que tem posse de sua
situação interior.
Partindo do pressuposto que os
dardos acesos do plano nefasto atuam incansavelmente sobre todos os viventes,
basta conhecer um pouco do método, e isto já é o bastante para notarmos o
quanto aquela alma aflita foi acometida pela parasitagem inconsciente que suja,
empesteia e escurece sua cela.
Essa recém-adquirida "visão
do invisível" nos confere alguns poderes muito delicados, nos permitem
adquirir virtudes, que atuam como partes de uma armadura, muito úteis para essa
batalha travada nas “regiões celestes”.
A primeira virtude que pode e
deve ser usada a partir dessa nova consciência é a compaixão. Ao notarmos no
mundo visível o desespero invisível em que se encontra uma alma aflita, temos a
obrigação moral de alertarmos aquele prisioneiro inconsciente, por pura
caridade. Um gesto de retribuição pelo alívio que você mesmo alcançou com o
estancamento do aumento do incêndio. Uma coisa boa assim deve ser desejada por
todos.
“Aquilo que você deseja que
seja feito contigo, vá e faça também ao próximo”.
(Jesus Cristo)
Impressionantemente, no mesmo
instante em que você age com a intenção de acalmar a dor alheia, se o seu
empreendimento for feito com pureza de coração, com a genuína vontade de
aliviar o sofrimento de uma alma aflita (ainda que ela não reconheça ou não dê
ouvidos aos seus alarmes), nesse instante você começará a notar que chamas que
ainda permaneciam acesas dentro de sua catedral lentamente se apagam...
Eis o milagre da caridade!
Somente quando trabalhamos pela
causa da miséria alheia, aprendemos a curar profundamente as nossas próprias
misérias. É um sistema de compartilhamento inteligente, em que, quanto mais se
partilha, mais se multiplica. O alívio que traz a Paz é como a multiplicação do
pão, de alguns poucos pedaços, alimenta-se a multidão, e ainda são recolhidos
cestos do excedente.
Mas ainda não tocamos no tema
propriamente dito. Você poderá se perguntar, o que toda essa questão de
conhecimento do método nefasto e da consciência da própria cela e das celas
adjacentes pode ter a ver com o perdão?
II. A coisa é mais óbvia do que parece... Ora, se uma alma
desesperada e aflita, agindo e reagindo aos estímulos do plano de modo
inconsciente, querendo sensações e coisas e depositando valores onde não se
deve, acaso vier a agir ou reagir de forma bestial, irracional, como um animal
acuado e selvagem (adestrado e programado para fazer exatamente isso), qual o
grau de responsabilidade deve-se atribuir àquela pessoa à sua frente? Muitas
vezes, algumas almas chegaram a um ponto tão degenerado, que a única coisa que elas ainda podem racionalizar é o
perdão. (Sobre o poder do perdão, ver vídeo no link abaixo).
https://youtube.com/shorts/YnRsI9oSyzA?si=c4P7elDRrc5Ok3Mp
O Perdão é algo tão poderoso, é
uma luz tão intensa, é um dom que vem de tão alto, que é como se o Sol nascesse
bem dentro da nossa cela, espantando ao mesmo tempo todas as sombras, todas as
lesmas, pondo abaixo todas as grades, paredes e correntes que desde o princípio
pesavam sobre a nossa existência.
O perdão é uma luz que não se
guarda no bolso, é um pão que não se come sozinho, para atingir os seus efeitos
deve sempre agir em direção ao outro, e no exato instante em que cumpre seus
objetivos no seu destino, toda a sua origem é confeitada. É um movimento onipresente,
uma flecha de luz que parte em todas as direções, que ilumina o coração do alvo
e do arqueiro.
Adicionando finalmente a dimensão
da altura nesta nossa ampla-visão da alma, atingimos o próximo estágio da
consciência em 3D, em que o antigo prisioneiro, libertado pelas chaves da
caridade e do perdão, tendo um sol iluminando seus caminhos, agora escala os
muros da prisão, toma o posto do sentinela que fica na torre donde do alto se avista
todo o presídio, lugar privilegiado de onde, ao mesmo tempo, se pode descer e
sair do esconderijo, indo ao convívio dos cativos, ou subir e contemplar do
camarote todas as celas, observar e absorver a lógica penitenciária, padrões de
movimento e isolamento, os quais regem todo o funcionamento daquele mundo frio,
que ainda é o seu, porém distante.
III. Ao escolhermos fazer o movimento de
subida na torre, para a contemplação das misérias humanas, percebemos que um
novo poder se desvela, como uma nova parte da armadura de que vamos nos
vestindo para a batalha. Esse poder é o da viagem no tempo e da modificação da
história.
A visão do sentinela percorre
outra vez caminhos conhecidos, corredores, alas, antigas celas, cubículos
escuros de nossa memória. Ao exercermos o poder de relembrar acontecimentos que
marcaram a vida de nossa alma, no ato mesmo de recordar revivemos, agora
revestidos de uma consciência toda nova, com uma armadura projetada para alguns
embates sangrentos, tendo em mãos a chave do perdão e da compaixão pelas
misérias alheias, percebemos o surpreendente poder de mudarmos a história que a
nossa antiga consciência contava para nossa alma.
Esse poder majestoso, uma dádiva anunciada
aos quatro ventos evangélicos, porém por muito poucos aproveitada, é a
oportunidade para sanear vidraças estilhaçadas, bancos quebrados, telhas
arrancadas, paredes mofadas da catedral. O agente ativo da nossa nova
consciência viaja no tempo-espaço da eternidade em que vive a nossa alma, e pode
perdoar a si mesmo e a outros, pois entende que tem a capacidade de restaurar
para sempre o estrago que nos foi praticado pelos aflitos agentes inconscientes
agora já perdoados.
Veja aqui que não se trata de
mentir para si próprio, alterar verdades, fingir que determinados fatos não
ocorreram. Tudo o que é ato está consumado na eternidade. Nada do que veio à
esfera da existência poderá inexistir. Portanto, o que se propõe aqui é
explorar outras potências no entorno deste ato, que ainda não foram totalmente
realizadas na esfera da existência e que não deixam de ser a periferia
verdadeira de um fato. Potências estas prontas para ser consumadas em ato pela
nova dotação da consciência, mais compreensiva para abarcar detalhes e possibilidades
antes inabarcáveis pela condição outrora menos expandida e mais embrutecida da
mesma consciência.
É como se o carpinteiro, anos
depois de terminar seu trabalho de transformar madeira em arte, com um novo
olhar pudesse notar certas arestas mal-acabadas e formas ainda pouco desenvolvidas.
Detendo maiores habilidades do que quando produziu aquela peça, pudesse agora acabá-la
com ainda mais dignidade, sem contudo fazer da obra outra coisa senão ainda
madeira e arte. O artista da alma não vai atear fogo ao tronco burilado, nem o
fazer deixar de existir. Aperfeiçoará, entretanto, os detalhes de uma coisa
tida como já acabada, de modo que suas potências possam ser totalmente
realizadas. Essa é a beleza do mundo do infinito.
Eis A Oficina da Paz!
(Encontraremos ainda oportunidade
para falar com calma
do maior mestre
carpinteiro,
aquele motor primeiro,
que nos ensina o
ofício de esculpir a alma)
(Mais
adiante falaremos sobre o mundo fora dos muros da prisão e sua relação com a lenda da Floresta - e o perdão divino
sobre o estrago que nós mesmos praticamos – e devemos pedir perdão em nome de
nossa antiga consciência, para a Paz com Deus);