domingo, 7 de abril de 2024

A Arte e a Fé


1.    Na imagem acima, podemos observar como o pensamento humano devidamente orientado para Deus confere em cada mínimo detalhe de qualquer obra um desejo de sublimidade, ordem e beleza. O homem cultivado na tradição cristã não enxerga seus atos ou mesmo as coisas apenas pela sua função mais imediata. Ora, se uma construção habitável serve apenas para chegar do trabalho e nos abrigar, pode perfeitamente ser um caixote simples com janelas quadradas, que é justamente o que vemos hoje em dia.

2.    O homem desprovido da Fé, que não tem em seus desígnios o Alfa e o Ômega em suas ações, vive como que para cumprir o mínimo requerido, é o ser pragmático e utilitarista. Para ele, as coisas são meramente práticas e funcionais, e assim também as pessoas, resultando na doença social da pós-modernidade que Zygmund Bauman definiu como “relações líquidas”. Se a este homem pragmático e utilitarista as coisas ou pessoas de suas relações não o servem como espera ou se deixam de cumprir uma função determinada, da parte desse homem acaba todo o interesse e as pessoas e coisas perdem para ele toda a sua razão de existir, já que perderam sua utilidade, e o interesse é a única cola que une o utilitarista ao seu descartável objeto de relação. Todo pragmático é um interesseiro impelido por motivações pueris. Mas, o que ele ignora é que, ao agir assim, ele mesmo contribui para a criação de um mundo que também o enxergará assim: um número, uma peça na engrenagem... e os reflexos dessa desordem se amontoarão como um bolo de lixo em sua porta, em forma de abandono e solidão, quando ele estiver velho, doente ou precisar de auxílio.

3.    O próprio Plano Nefasto desse sistema de engenharia social que pensou e produziu os homens-coisa usarão estas consciências cegadas apenas enquanto servirem na condição de agentes inconscientes, e, uma vez atingida a etapa almejada pelo Plano, em que não mais se faz necessário este tipo de agente, esse mesmo sistema tratará de expurgá-lo para fora de si, seja com a bancarrota decorrente de um sistema bomba-relógio baseado em crédito fiduciário, seja com a impossibilidade de um sistema previdenciário saudável tal como é executado em formato de pirâmide nos nossos dias, seja com uma boa redução populacional através de métodos silenciosos e brandos, como a queda da natalidade e da fertilidade, ou métodos mesmo escandalosos, como uma praga planejada, seja pela sumária execução, conforme vimos acontecer em todas as guerras e revoluções.

4.    Voltando à imagem, podemos notar nesta construção o perfeito cuidado com cada detalhe, apesar de uma janela ter de cumprir sua função, ela é adornada de contornos que o pragmático consideraria supérfluos e perda de tempo, mas o homem que faz tudo para Deus quer depositar em suas obras todo carinho e riqueza de seu mundo interior sarado pelo Amor divino. E, neste caso, a forma importa, pois detendo dentro de si a própria Beleza, ele pode considerar a beleza como valor intrínseco em tudo o que vê.

5.    Outro exemplo são as grades desse portão. Observem que não precisavam ostentar tantos detalhes, muitos deles inclusive nem são funcionais, e existem apenas pela dignidade inerente à própria beleza de sua forma. Ou, se têm alguma funcionalidade que não seja óbvia, isto também contribui para a inteligência dos homens, pois que a sua forma misteriosa e bela os conclama a investigarem sempre além do óbvio e imediato. Coisa que na criação de Deus também não é diferente.

6.    O adorno em forma de peão sobre as colunas, a regularidade geométrica dando um tom de ordem e harmonia em suas bases, o arco sobre a porta principal e sobre algumas janelas, as sugestões pontiagudas como que tudo apontando para o alto – reforçando-se a ligação com o divino – as árvores pensadas e plantadas para um encerramento de suas copas bem ao meio da passagem. A própria sensação de solidez de todo o edifício, em contraste com algo líquido e efêmero, demonstra que as almas que se envolveram neste projeto de construção já possuíam internamente os conceitos que foram exteriorizados através da arte arquitetônica. Mais uma vez, “o visível feito do invisível” (Hebreus 11, 3).

7.    O amor ágape para o qual Cristo convoca os homens gera neles o dom de co-criadores, e, portanto, o desejo de continuar realizando no mundo o mesmo capricho (não-apenas-matemático) com que Deus mesmo ordenou a beleza do céu visível e de toda a natureza. As estrelas, as águas doces e salgadas, as montanhas, os campos, os peixes, as aves, os animais selváticos e domésticos, o homem e a mulher.

8.    Um caminhante imaginário nesta cena, ainda que inconscientemente, convencido pela beleza externa que ressoa e responde desde o fundo mais recôndito de seu ser, intuiria a origem em Deus e o seu Fiel destino, percorreria as ruas desta cidade em tudo confirmando um senso de durabilidade, ao contrário da 'descartabilidade' líquida da pós-modernidade. Para onde olhasse, teria inspirado em si um espírito de louvor e gratidão, patente nestas coisas feitas. 

9.    Deus nos fala por palavras e por coisas. Ordem e Beleza são atributos de Deus que podem ser facilmente detectados na criação, e o homem que tem Deus em si (por amor e gratidão, não saberia criar outra coisa) também cria ordem e beleza, com o objetivo de inspirar Deus em outros homens, através de tudo o que se faz.

10.    Mas o homem que apenas se desloca do ponto A ao ponto B pela metrópole tem apenas um objetivo mesquinho: o de conclusão. E assim confirmam o seu obtuso caminho os prédios funcionais e quadráticos feitos a partir do reflexo das almas esquálidas e práticas que comunicam um desleixo com a beleza e com o amor em sua vida interior, gerando em todos, pelas coisas criadas, uma sensação de correr em vazio atrás do vento, na vaidade das vaidades, visando a conclusão de um trabalho e o início de outro projeto, numa roda de samsara de hamsters urbanos.

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Créditos da imagem: https://youtu.be/qgPSTtl3zOU?si=YBlkCTUAyLiquu6E

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