1. Na imagem acima, podemos observar
como o pensamento humano devidamente orientado para Deus confere em cada mínimo
detalhe de qualquer obra um desejo de sublimidade, ordem e beleza. O homem
cultivado na tradição cristã não enxerga seus atos ou mesmo as coisas apenas
pela sua função mais imediata. Ora, se uma construção habitável serve apenas
para chegar do trabalho e nos abrigar, pode perfeitamente ser um caixote
simples com janelas quadradas, que é justamente o que vemos hoje em dia.
2. O homem desprovido da Fé, que não tem em seus
desígnios o Alfa e o Ômega em suas ações, vive como que para cumprir o mínimo
requerido, é o ser pragmático e utilitarista. Para ele, as coisas são meramente
práticas e funcionais, e assim também as pessoas, resultando na doença social da
pós-modernidade que Zygmund Bauman definiu como “relações líquidas”. Se a este
homem pragmático e utilitarista as coisas ou pessoas de suas relações não o
servem como espera ou se deixam de cumprir uma função determinada, da parte
desse homem acaba todo o interesse e as pessoas e coisas perdem para ele toda a
sua razão de existir, já que perderam sua utilidade, e o interesse é a única
cola que une o utilitarista ao seu descartável objeto de relação. Todo
pragmático é um interesseiro impelido por motivações pueris. Mas, o que ele
ignora é que, ao agir assim, ele mesmo contribui para a criação de um mundo que
também o enxergará assim: um número, uma peça na engrenagem... e os reflexos
dessa desordem se amontoarão como um bolo de lixo em sua porta, em forma de
abandono e solidão, quando ele estiver velho, doente ou precisar de auxílio.
3. O próprio Plano Nefasto desse
sistema de engenharia social que pensou e produziu os homens-coisa usarão estas
consciências cegadas apenas enquanto servirem na condição de agentes
inconscientes, e, uma vez atingida a etapa almejada pelo Plano, em que
não mais se faz necessário este tipo de agente, esse mesmo sistema tratará de
expurgá-lo para fora de si, seja com a bancarrota decorrente de um sistema
bomba-relógio baseado em crédito fiduciário, seja com a impossibilidade de um
sistema previdenciário saudável tal como é executado em formato de pirâmide nos
nossos dias, seja com uma boa redução populacional através de métodos
silenciosos e brandos, como a queda da natalidade e da fertilidade, ou métodos
mesmo escandalosos, como uma praga planejada, seja pela sumária execução,
conforme vimos acontecer em todas as guerras e revoluções.
4. Voltando à imagem, podemos notar
nesta construção o perfeito cuidado com cada detalhe, apesar de uma janela ter
de cumprir sua função, ela é adornada de contornos que o pragmático
consideraria supérfluos e perda de tempo, mas o homem que faz tudo para Deus
quer depositar em suas obras todo carinho e riqueza de seu mundo interior
sarado pelo Amor divino. E, neste caso, a forma importa, pois detendo dentro de
si a própria Beleza, ele pode considerar a beleza como valor intrínseco em tudo
o que vê.
5. Outro exemplo são as grades desse
portão. Observem que não precisavam ostentar tantos detalhes, muitos deles
inclusive nem são funcionais, e existem apenas pela dignidade inerente à
própria beleza de sua forma. Ou, se têm alguma funcionalidade que não seja
óbvia, isto também contribui para a inteligência dos homens, pois que a sua
forma misteriosa e bela os conclama a investigarem sempre além do óbvio e
imediato. Coisa que na criação de Deus também não é diferente.
6. O adorno em forma de peão sobre
as colunas, a regularidade geométrica dando um tom de ordem e harmonia em suas
bases, o arco sobre a porta principal e sobre algumas janelas, as sugestões
pontiagudas como que tudo apontando para o alto – reforçando-se a ligação com o
divino – as árvores pensadas e plantadas para um encerramento de suas copas bem
ao meio da passagem. A própria sensação de solidez de todo o edifício, em
contraste com algo líquido e efêmero, demonstra que as almas que se envolveram
neste projeto de construção já possuíam internamente os conceitos que foram
exteriorizados através da arte arquitetônica. Mais uma vez, “o visível feito do
invisível” (Hebreus 11, 3).
7. O amor ágape para o qual Cristo
convoca os homens gera neles o dom de co-criadores, e, portanto, o desejo de
continuar realizando no mundo o mesmo capricho (não-apenas-matemático) com que
Deus mesmo ordenou a beleza do céu visível e de toda a natureza. As estrelas,
as águas doces e salgadas, as montanhas, os campos, os peixes, as aves, os
animais selváticos e domésticos, o homem e a mulher.
8. Um caminhante imaginário nesta
cena, ainda que inconscientemente, convencido pela beleza externa que ressoa e
responde desde o fundo mais recôndito de seu ser, intuiria a origem em Deus e o
seu Fiel destino, percorreria as ruas desta cidade em tudo confirmando um senso
de durabilidade, ao contrário da 'descartabilidade' líquida da pós-modernidade.
Para onde olhasse, teria inspirado em si um espírito de louvor e gratidão, patente
nestas coisas feitas.
9. Deus nos fala por palavras e por coisas. Ordem e Beleza
são atributos de Deus que podem ser facilmente detectados na criação, e o homem
que tem Deus em si (por amor e gratidão, não saberia criar outra coisa) também
cria ordem e beleza, com o objetivo de inspirar Deus em outros homens, através
de tudo o que se faz.
10. Mas o homem que apenas se desloca
do ponto A ao ponto B pela metrópole tem apenas um objetivo mesquinho: o de
conclusão. E assim confirmam o seu obtuso caminho os prédios funcionais e
quadráticos feitos a partir do reflexo das almas esquálidas e práticas que
comunicam um desleixo com a beleza e com o amor em sua vida interior, gerando
em todos, pelas coisas criadas, uma sensação de correr em vazio atrás do vento,
na vaidade das vaidades, visando a conclusão de um trabalho e o início de outro
projeto, numa roda de samsara de hamsters urbanos.
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Créditos da imagem: https://youtu.be/qgPSTtl3zOU?si=YBlkCTUAyLiquu6E