terça-feira, 8 de outubro de 2024

Breve ensaio sobre o invisível



O esboço a grafite antes da tinta é como o espírito precedente ao corpo.

Ainda que borrada a superfície, ou ainda mais, que rasgada a tela ou ateado fogo a toda a obra, restam ainda na memória do artista aqueles primitivos traços e sua imagem viva, o contexto todo de sua intenção com aquela obra perfeita e acabada.

Ainda que as intempéries, a maldade e o fogo venham a decompor e reduzir ao pó o braço, o olho e as paisagens, a alma permanece intacta. Somente o Criador da obra poderia destruir o traço, eis que produto da liberdade do amor de seu coração.

A sinceridade é como o nu. Ainda que as formas das carnações sejam belas, misteriosas e atraentes, envolvemos em panos o espetáculo como um palco coberto pelas cortinas. E passamos a quase totalidade de nossas horas vestidos e paramentados, sobrepondo uma máscara diante de nossa face.

A roupa é o personagem que retiramos do cabide para contracenar com outros personagens. E a vida moderna não nos deixa despirmo-nos na solidão do ócio da autocontemplação. As redes pseudossociais nos aproximam de um vidro gelado e colorido e nos afastam do forno em que assamos o pão dourado de nossos verdadeiros eus, os quais, quando nunca se esbarram nem são contemplados viram carvão.

Passamos o que chamamos de vida cuidando da neve no exterior da casa, enquanto atrofiam as asas do pássaro que sufoca aprisionado numa gaiola afastada das janelas fechadas.

Perceber e arrepender-se é o processo que nos permite encontrar a chave para o interior da casa. O susto da verdade é um peso aliviado como no fim da viagem.

Tempo para ver-se. O eu nu. Como está a tua verdadeira face? Quem é aquele traço? O que fizeram com a tua carne? Esqueça o nome que te deram, ignore o que você acha que faz. No fundo daquele forno, daquela gaiola, onde ninguém além de Deus mais sabe, responda-me se puder:

quem você não está sendo?

domingo, 7 de abril de 2024

A Arte e a Fé


1.    Na imagem acima, podemos observar como o pensamento humano devidamente orientado para Deus confere em cada mínimo detalhe de qualquer obra um desejo de sublimidade, ordem e beleza. O homem cultivado na tradição cristã não enxerga seus atos ou mesmo as coisas apenas pela sua função mais imediata. Ora, se uma construção habitável serve apenas para chegar do trabalho e nos abrigar, pode perfeitamente ser um caixote simples com janelas quadradas, que é justamente o que vemos hoje em dia.

2.    O homem desprovido da Fé, que não tem em seus desígnios o Alfa e o Ômega em suas ações, vive como que para cumprir o mínimo requerido, é o ser pragmático e utilitarista. Para ele, as coisas são meramente práticas e funcionais, e assim também as pessoas, resultando na doença social da pós-modernidade que Zygmund Bauman definiu como “relações líquidas”. Se a este homem pragmático e utilitarista as coisas ou pessoas de suas relações não o servem como espera ou se deixam de cumprir uma função determinada, da parte desse homem acaba todo o interesse e as pessoas e coisas perdem para ele toda a sua razão de existir, já que perderam sua utilidade, e o interesse é a única cola que une o utilitarista ao seu descartável objeto de relação. Todo pragmático é um interesseiro impelido por motivações pueris. Mas, o que ele ignora é que, ao agir assim, ele mesmo contribui para a criação de um mundo que também o enxergará assim: um número, uma peça na engrenagem... e os reflexos dessa desordem se amontoarão como um bolo de lixo em sua porta, em forma de abandono e solidão, quando ele estiver velho, doente ou precisar de auxílio.

3.    O próprio Plano Nefasto desse sistema de engenharia social que pensou e produziu os homens-coisa usarão estas consciências cegadas apenas enquanto servirem na condição de agentes inconscientes, e, uma vez atingida a etapa almejada pelo Plano, em que não mais se faz necessário este tipo de agente, esse mesmo sistema tratará de expurgá-lo para fora de si, seja com a bancarrota decorrente de um sistema bomba-relógio baseado em crédito fiduciário, seja com a impossibilidade de um sistema previdenciário saudável tal como é executado em formato de pirâmide nos nossos dias, seja com uma boa redução populacional através de métodos silenciosos e brandos, como a queda da natalidade e da fertilidade, ou métodos mesmo escandalosos, como uma praga planejada, seja pela sumária execução, conforme vimos acontecer em todas as guerras e revoluções.

4.    Voltando à imagem, podemos notar nesta construção o perfeito cuidado com cada detalhe, apesar de uma janela ter de cumprir sua função, ela é adornada de contornos que o pragmático consideraria supérfluos e perda de tempo, mas o homem que faz tudo para Deus quer depositar em suas obras todo carinho e riqueza de seu mundo interior sarado pelo Amor divino. E, neste caso, a forma importa, pois detendo dentro de si a própria Beleza, ele pode considerar a beleza como valor intrínseco em tudo o que vê.

5.    Outro exemplo são as grades desse portão. Observem que não precisavam ostentar tantos detalhes, muitos deles inclusive nem são funcionais, e existem apenas pela dignidade inerente à própria beleza de sua forma. Ou, se têm alguma funcionalidade que não seja óbvia, isto também contribui para a inteligência dos homens, pois que a sua forma misteriosa e bela os conclama a investigarem sempre além do óbvio e imediato. Coisa que na criação de Deus também não é diferente.

6.    O adorno em forma de peão sobre as colunas, a regularidade geométrica dando um tom de ordem e harmonia em suas bases, o arco sobre a porta principal e sobre algumas janelas, as sugestões pontiagudas como que tudo apontando para o alto – reforçando-se a ligação com o divino – as árvores pensadas e plantadas para um encerramento de suas copas bem ao meio da passagem. A própria sensação de solidez de todo o edifício, em contraste com algo líquido e efêmero, demonstra que as almas que se envolveram neste projeto de construção já possuíam internamente os conceitos que foram exteriorizados através da arte arquitetônica. Mais uma vez, “o visível feito do invisível” (Hebreus 11, 3).

7.    O amor ágape para o qual Cristo convoca os homens gera neles o dom de co-criadores, e, portanto, o desejo de continuar realizando no mundo o mesmo capricho (não-apenas-matemático) com que Deus mesmo ordenou a beleza do céu visível e de toda a natureza. As estrelas, as águas doces e salgadas, as montanhas, os campos, os peixes, as aves, os animais selváticos e domésticos, o homem e a mulher.

8.    Um caminhante imaginário nesta cena, ainda que inconscientemente, convencido pela beleza externa que ressoa e responde desde o fundo mais recôndito de seu ser, intuiria a origem em Deus e o seu Fiel destino, percorreria as ruas desta cidade em tudo confirmando um senso de durabilidade, ao contrário da 'descartabilidade' líquida da pós-modernidade. Para onde olhasse, teria inspirado em si um espírito de louvor e gratidão, patente nestas coisas feitas. 

9.    Deus nos fala por palavras e por coisas. Ordem e Beleza são atributos de Deus que podem ser facilmente detectados na criação, e o homem que tem Deus em si (por amor e gratidão, não saberia criar outra coisa) também cria ordem e beleza, com o objetivo de inspirar Deus em outros homens, através de tudo o que se faz.

10.    Mas o homem que apenas se desloca do ponto A ao ponto B pela metrópole tem apenas um objetivo mesquinho: o de conclusão. E assim confirmam o seu obtuso caminho os prédios funcionais e quadráticos feitos a partir do reflexo das almas esquálidas e práticas que comunicam um desleixo com a beleza e com o amor em sua vida interior, gerando em todos, pelas coisas criadas, uma sensação de correr em vazio atrás do vento, na vaidade das vaidades, visando a conclusão de um trabalho e o início de outro projeto, numa roda de samsara de hamsters urbanos.

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Créditos da imagem: https://youtu.be/qgPSTtl3zOU?si=YBlkCTUAyLiquu6E

quarta-feira, 27 de março de 2024

AQUELE EU



Estou suspenso, Senhor, como um recém-nascido desfalecido de sono e inteiramente entregue em teus braços estendidos, que me sustêm.

Quero fazer força de ir ao teu encontro, como num soberbo movimento que de nada vale, pois que minhas mãos estão presas ao meu corpo e o céu é tão distante. Meus dedos não comunicam nada além de gracejos infantis, mas o céu me comunica tanto.

Sei, e sinto que sei, e vejo o momento de minha concepção no mais absoluto silêncio e escuridão, aquele momento em que minha alma foi plasmada para, como explosão em luz, se abrir e abraçar o universo. Sei que minha alma é infinita, pois, eis que de Ti foi que fluiu, sou filete de água imaculada que brota da fonte de todas as águas eternas de um oceano inconcebível para uma mente.

Sei, e sinto que sei, que minha pusilânime alma sendo reflexo em grão do magnânimo Sol que é Teu ainda assim é grande para abrigar o cosmos. Já me resta claro que tudo o que existe para ser (re)conhecido cabe dentro de mim, que sou isto que nasceu de ti e que se expandiu para encampar os céus e o mundo.

Sei também que os maus pensamentos dos homens e meus insistentes desejos são como colheres de enxofre que bebem a sopa pura da vida de minh’alma.

Quero estar em Ti como desde o princípio, Pai meu. Passei longos anos andando em círculos concêntricos e miúdos e a força centrípeta que me atraía a mim era centrífuga de Ti. Até que, regenerando-me arrependido, Te vi em mim, e a batalha sangrenta para achar a estrela do oriente orientou-me de volta ao princípio de mim.

Todo ser tem em Ti a sua existência e ao perceber isso pude cair de sono, não mais em calçadas frias, mas em teu braço, e finalmente repousei. Posso agora sofrer calado ou amar e sorrir, pois minhas pupilas, como estrelas ainda negras, ávidas de Tua luz que a engolem, tem um sentido e uma direção. Meu coração é uma flecha que não deseja errar o alvo. Ao longo das eras, um grau de erro me levaria para fora do calor do Sol da Justiça e isso me seria o frio da solidão.

Mas o arco do céu foi torcido para que meu pensamento fosse destorcido. As posições das constelações que me serviam de fadado destino no dia do meu nascimento foram realinhadas para a noite do meu novo-nascimento, o fim da amnésia, o resgate daquela lembrança de onde o meu Eu veio.

Foi pelo mergulho nas profundezas da dor absurda e irracional por causa daquelas saudades do infinito, quando, nadando para longe da Salvação, aspirei e bebi o ar metálico e as águas do mal salgado, debatendo-me sem Paz, sem ar e sem vento, tendo os lábios molhados de tudo o que me fazia mais sede, na inanição de um deserto úmido, que meu Pai me chamou das trevas para a sua maravilhosa Luz. “Desperta, tu que dormes!”

Teve pena daquele infantil pesadelo. Despertou-me para que eu chorando por fora deixasse de chorar por dentro. Vestiu-me de roupas limpas e me calçou chinelos, esticou meu dedo e nele escorregou para sua base um ansioso anel, um símbolo indelével que me servirá de passagem para finalmente adentrar a porta que leva os humildes machucados às águas que saram, meu concreto batismo e o supremo nascimento. Voltar a existir Contigo naquele Amor em que nada é alheio e imperfeito.

Mas, enquanto ainda me deito no leito do teu colo, firma-me no fiel sentimento de que nada sou, o que sonhei foi só um defeito, o despertar foi um alívio e que de outro sonho carnal ainda acordo, quando o teu Amor de Oceano me convocar naquele último mergulho, agora sim, em direção ao tudo, matar a morte e as saudades daquele existir infindo, abraçar-me e ser por Ti abraçado, como gota gelada que caiu das alturas do céu ao aguardo do mar de braços abertos, meu Jesus na cruz, meu amor, meu grande amigo, meu lindo eu, que saudades.

Perdoa-me pelo que sonhei que fui.

Chama-me brevemente. Agora sei que estou no aguardo.

Abriga-me para sempre em Ti.

Te amo.

Ass.,

Aquele Eu.

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