O esboço a grafite antes da tinta
é como o espírito precedente ao corpo.
Ainda que borrada a superfície,
ou ainda mais, que rasgada a tela ou ateado fogo a toda a obra, restam ainda na memória
do artista aqueles primitivos traços e sua imagem viva, o contexto todo de sua intenção
com aquela obra perfeita e acabada.
Ainda que as intempéries, a
maldade e o fogo venham a decompor e reduzir ao pó o braço, o olho e as
paisagens, a alma permanece intacta. Somente o Criador da obra poderia destruir
o traço, eis que produto da liberdade do amor de seu coração.
A sinceridade é como o nu. Ainda
que as formas das carnações sejam belas, misteriosas e atraentes, envolvemos em
panos o espetáculo como um palco coberto pelas cortinas. E passamos a quase
totalidade de nossas horas vestidos e paramentados, sobrepondo uma máscara diante
de nossa face.
A roupa é o personagem que
retiramos do cabide para contracenar com outros personagens. E a vida moderna não
nos deixa despirmo-nos na solidão do ócio da autocontemplação. As redes pseudossociais
nos aproximam de um vidro gelado e colorido e nos afastam do forno em que
assamos o pão dourado de nossos verdadeiros eus, os quais, quando nunca se
esbarram nem são contemplados viram carvão.
Passamos o que chamamos de vida
cuidando da neve no exterior da casa, enquanto atrofiam as asas do pássaro que sufoca
aprisionado numa gaiola afastada das janelas fechadas.
Perceber e arrepender-se é o
processo que nos permite encontrar a chave para o interior da casa. O susto da
verdade é um peso aliviado como no fim da viagem.
Tempo para ver-se. O eu nu. Como
está a tua verdadeira face? Quem é aquele traço? O que fizeram com a tua carne?
Esqueça o nome que te deram, ignore o que você acha que faz. No fundo daquele
forno, daquela gaiola, onde ninguém além de Deus mais sabe, responda-me se
puder:
quem você não está sendo?
