quinta-feira, 23 de novembro de 2023

A Vida no Espírito (fora dos muros da prisão)

11. Voltando ao tema da experiência fora dos muros da prisão, do encontro com outras consciências, pensadores e autores, artistas, e a busca pela lenda da passagem secreta na Floresta que leva ao templo da Jerusalém celestial.

Da posição elevada da consciência, olhando abaixo toda a massa carcerária aprisionada na umidade fria de suas celas, passada toda a perplexidade cegante causada, e naturalmente esperada, a partir de toda euforia oriunda da aquisição de alguma nova liberdade, é possível então suspeitar da possibilidade de novos esforços, treinar o alongar do olhar e vislumbrar, em meio à névoa inerente às altitudes, sobre os vértices dos limites da prisão, outras torres, povoadas por consciências elevadas de outros ex-detentos.

A nova possibilidade gera entusiasmos que renovam todos os fôlegos por mais conhecimento. É nesse instante que algum olho interior se abre a uma imensa e nova realidade, a identificação com um tipo de preocupação e interesse totalmente novos (quem tem olhos de ver, veja). Nossa consciência recém-elevada trava contato com a vastidão de um outro oceano intocado. É a descoberta do novo mundo, apesar de muito antigo, é se aperceber que sempre esteve diante de nós o grito pela essência e pelo sentido da vida, que sangrou a garganta de tantos homens e o seu eco permanece engastado nos pináculos como gárgulas aflitos, acima dos olhos de todos mas ignorados por tantos: nas páginas dos livros, em toda a arquitetura antiga, nos afrescos e pinturas, nas melodias e sinfonias, na doutrina espiritual da Santa Igreja Católica, enfim, toma-se intimidade com o âmago do sofrimento das grandes almas da humanidade e seus interesses e questões, e êxtases e paradoxos, e buscas racionais, e por vezes até irracionais, das consciências mais profundas que já viveram.

Ao visitarmos outras torres (onde vemos a sombra da passagem, porém onde jamais repousaram os corações mais inquisitivos), tropeçamos sobre as obras do Rei Salomão e de Platão e de Aristóteles; de Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino. Da bela literatura de Dostoiévski e de Tolstói. Cortamos os pés nos cacos das estátuas partidas em mil pedaços, batemos a testa contra as construções megalíticas e misteriosas da antiguidade, sujamos os dedos na tinta fresca das artes sacras, ofuscamos os olhos com o brilho dos vitrais e dos símbolos perenes, balbuciamos sem querer os versos dos poemas existenciais e transcendentais, sentimos bater contra o peito o som grave dos acordes da música clássica e dos cantos espirituais, e os lamentos incompreendidos nas canções mudas instrumentais.

Parece tragicômico como que sempre estão esses homens deslocados de seu tempo, de modo que suas aventuras artísticas e expressivas são encontradas e compreendidas e seu sofrimento compartilhado por outras almas somente séculos após. E lá chegamos, tomando contato com as sombras do que um dia foi o sofrimento bem presente de grandes consciências. E estas sombras deixam rastros para fora das torres, pegadas já evanescidas que mostram buscas empreendidas para além dos muros da prisão, para além da vida, e que do presente percebemos que foi para onde partiram as almas do passado.

A Floresta é símbolo da vida espiritual do homem que se abriu à experiência de investigar as possibilidades de sua consciência. A vida na floresta, resumo perfeito de um ambiente hostil, com bichos peçonhentos, feras, pragas, intempéries, buracos, mistérios, solidão e desorientação, traz em si também uma beleza que provém do desconhecido, o fascínio do perigo, um convite que nos impele a embrenhar-nos na densa mata, abrir picadas e caminhos, descobrir o tesouro escondido, contemplar as cidades perdidas, colher os frutos nunca antes vistos, avistar as índias virgens, enfrentar o dragão.

Para uma boa parte daquela seleta minoria que tem a coragem de aceitar o convite para descobrir os segredos da mata fechada, a busca cessa pela exaustão ou pelo cansaço frustrante de um vida intelecto-espiritual tão solitária. Ainda que o bandeirante da alma depare com outros desbravadores, geralmente caminhando sozinhos, cada um tem a seta de seu coração apontando para um sentido. Embora alguns caminhantes possam compartilhar partes da trilha na companhia de outro, fatalmente quase nunca podem responder alguma pergunta feita pelo companheiro, eis que juntos apenas em espírito, separados pelo tempo e pelo espaço.

Durante os períodos de grande lucidez, nos quais o buscador compreende perfeitamente o que procura, ele segue as pegadas e as célebres trilhas legadas pela passagem dos antigos mateiros, a este período de lucidez espiritual chamamos dia. Mas, quando tomamos algum caminho sinuoso e espinhoso, seja por iniciativa própria, seja por seguir os passos de algum pensador muito corajoso, esse caminho por vezes some por debaixo de rios, atravessa as fendas entre duas montanhas ou penetra a inospitalidade d’alguma caverna, e o ambiente se torna em trevas densas e o ar fica congestionado pela névoa obscurecente. Nesta noite da consciência, não sabemos bem para onde estamos progredindo, e, caso estejamos tentando seguir as pistas de uma consciência passada, neste momento temos a plena convicção de que também o antigo pensador tampouco sabia para onde estava prosseguindo. A única força que atua sobre a alma do viajante da floresta é a da impossibilidade de voltar.

Neste estágio da consciência, a única certeza é a de que, se acaso regredíssemos em nosso caminho, como se tentando uma volta, depois de tudo o que foi conhecido e descoberto, ficaríamos ainda mais perdidos; uma vez que o retorno completo ao ponto de partida seria a clausura da cela fria e úmida à espera do cumprimento da sentença.

Dessa forma, tendo ao menos a clareza do quanto já nos permitimos avançar mata adentro, seria inviável voltar, de modo que a única força que resta é esta que vem do caminho percorrido e nos empurra para adiante, é como uma sensação de um dever ainda não cumprido. A curiosidade do espírito é diferente daquela do dicionário. Aquela diminui à medida que satisfazemos o apetite da mente com os princípios básicos que causam o motivo da curiosidade. Esta curiosidade espiritual é bem diversa, é uma noção mais assustadora, como se nossa consciência fosse uma ilha cercada pelas águas do inconsciente. À medida que aumentamos a área de nossa ilha da consciência, maior é o nosso contato com o oceano do desconhecido. É um processo em paradoxo, no qual ampliamos as luzes na mesma medida em que percebemos a imensidade das trevas da nossa inconsciência.

Existe uma teoria na biologia, bem pouco aceita, que descreve razoavelmente este paradoxo. É a teoria da complexidade irredutível. Ela preceitua que, à medida que tomamos ciência do funcionamento de um determinado mecanismo biológico de um dado organismo, percebemos ao mesmo tempo que outros elementos outrora desconhecidos são somados à grande engrenagem biológica, de forma que, na ausência de quaisquer desses pequenos componentes, todo o sistema entraria em colapso. E, à medida que se conhece com mais definição e pormenorização os mais delicados processos desse grande sistema, descobrimos inevitavelmente uma complexidade outra, ainda mais delicada e intrincada, numa complexidade sempre irredutível. Consequentemente à evolução das técnicas microscópicas, que nos permitem observar o comportamento de organelas e componentes biológicos cada vez mais minúsculos, vislumbramos a sofisticadíssima homeostase químico-proteica que se traduz em um desafio científico crescente e sempre invencível, na mesma proporção em que as técnicas avançam.

Assim é a vida no espírito.

Assim é a vida na consciência. Tomamos contato de uma forma cada vez mais aguda, cada vez mais sofisticada, cada vez mais delicada, cada vez mais sensível, com o nosso mundo interior e com nossas trevas do inconsciente. E o contato com essa floresta assombrosa, plena de riscos e desafios, só deveria ser seriamente empreendida se já sabemos de antemão, ou seja, antes do início da jornada, onde desejamos chegar. E uma vez que partimos com uma bússola bem estabelecida, que aponta insistentemente para a Estrela do Oriente, a Estrela de Belém, temos como guia o próprio Cristo, aquele Sol Nascente da Justiça, que encarnou 'para nos livrar das trevas e das sombras da morte e guiar os nossos pés pelo caminho da Paz'. (Lucas 1, 78).

A Posição Elevada da Consciência e sua Relação com o Perdão

 8. Voltando ao tema da posição elevada da consciência e a sua relação com o perdão

I.             [Repetindo o que já foi mencionado no capítulo número 4 (A Arte em forma de Trabalho), um dos principais objetivos da Oficina da Paz é mostrar ao leitor que é possível fazer um uso racional, inteligente e útil da dor. À medida que amadurecemos nossa dor interior, pela compreensão de suas causas, ela fica à disposição da consciência, para trabalhá-la. Ao obtermos uma consciência acima desta dor, ganhamos poderes sobre ela, e podemos traçar alguns objetivos para a utilização deste poder sapiencial, para, em sinal de retribuição pelo alívio alcançado, e caridade para com outros aflitos, reverter em mais consciência e Paz ao próximo, que sofre a dor e reage de modo inconsciente aos serviços do plano].

Ao tomarmos consciência da presença real do nosso mundo interior e, ao investigar como anda a saúde de nossa alma, verificamos alguns aspectos mais ou menos inerentes à condição do homem, que é a presença de uma dor, ou uma falta, uma ânsia, uma sensação de que algo está desordenado.

Considerando como certo - o caso de termos sido contaminados pelas setas inflamadas do plano nefasto, a parte a princípio mais inacessível de nossa alma: o que os psicólogos e analistas chamam inconsciente, acaba exigindo de nossa vontade a satisfação de determinadas necessidades que não são originadas a priori em nosso mundo interior, mas incutido nele, por essa janela lateral que os nossos sentidos abrem de maneira subliminar, inadvertidamente, despercebidamente, e essas setas acesas, embebidas em betume e enxofre, caem dentro da catedral de nossa alma, pondo fogo em toda nossa estrutura a partir de dentro.

Ao compreendermos, embora superficialmente, as causas mais comuns que nos levam ao estado de angústia e solidão, através dos modos de operação do plano, conseguimos entender alguns fenômenos, até outra hora apenas percebidos difusamente, acerca do incêndio calamitoso e progressivo que ameaça nossa existência interior e física.

No instante em que atingimos alguma consciência do que se passa dentro, tomamos, em decorrência, alguma posse da situação e podemos começar a traçar um “contraplano”, com intuito de apagarmos o incêndio o mais rapidamente possível. Isso significa detectar a brecha e impedir que as setas inflamadas atravessem a barreira do nosso inconsciente. Tomar consciência dos métodos usados de forma sub-reptícia para nos infligir males já é fechar janelas laterais que outrora permitiam a entrada de mais fogo. Tendo cessado, ao menos nesse primeiro instante, a penetração de mais dores, já sentimos um alívio interior. Nosso edifício já se torna menos quente, menos urgente, o que nos dá mais tempo para avaliar o estrago e pensar em como eliminar as muitas chamas internas que ainda teimam em arder.

Retornando à metáfora da cela fria e úmida (mencionada no capítulo 4), quando a consciência do nosso prisioneiro interior enxerga a dura realidade de sua própria cela, já não é apenas um encarcerado passivo resmungando sua miséria, mas já é um agente ativo planejando a sua fuga. Ao estudar os cantos de sua inconsciência, acaba vislumbrando do outro lado do corredor, celas também frias e úmidas, muitas vezes infestadas de ratos, assombradas por inúmeros outros desastres espirituais, os quais, em comparação, fazem da sua condição anteriormente miserável um verdadeiro oásis.

Nesse novo estágio de consciência, mais amplo e mais distante, adicionamos largura e comprimento ao nosso olhar (visão 2D). Podemos ter a bondade da compaixão com o próximo que sofre, mesmo sem conhecer os motivos que levaram aquela alma àquele cárcere, sabemos que o frio úmido e a solidão são uma realidade bem presente de todos os moradores da masmorra. Ao depararmos com uma pessoa no mundo exterior, aparentemente livre, agindo e reagindo aos estímulos da vida, de modo menos ou mais inconsciente, já podemos contemplá-la com os olhos do prisioneiro consciente.

A primeira coisa que o prisioneiro enxerga são os detalhes sutis, não os mais aparentes. Logo, não é pelas palavras que se julga uma alma displicente, mas pelas suas atitudes e seu nível de consciência em relação ao seu próprio mundo interior (sua própria cela). Ao prisioneiro mais antigo de cadeia, bastam alguns poucos minutos de observação e escuta (ou conversa direta), para verificar nela o quanto de seu próprio incêndio aquela pessoa tem noção, e do tanto que tem posse de sua situação interior.

Partindo do pressuposto que os dardos acesos do plano nefasto atuam incansavelmente sobre todos os viventes, basta conhecer um pouco do método, e isto já é o bastante para notarmos o quanto aquela alma aflita foi acometida pela parasitagem inconsciente que suja, empesteia e escurece sua cela.

Essa recém-adquirida "visão do invisível" nos confere alguns poderes muito delicados, nos permitem adquirir virtudes, que atuam como partes de uma armadura, muito úteis para essa batalha travada nas “regiões celestes”.

A primeira virtude que pode e deve ser usada a partir dessa nova consciência é a compaixão. Ao notarmos no mundo visível o desespero invisível em que se encontra uma alma aflita, temos a obrigação moral de alertarmos aquele prisioneiro inconsciente, por pura caridade. Um gesto de retribuição pelo alívio que você mesmo alcançou com o estancamento do aumento do incêndio. Uma coisa boa assim deve ser desejada por todos.

 

“Aquilo que você deseja que seja feito contigo, vá e faça também ao próximo”.

(Jesus Cristo)

 

Impressionantemente, no mesmo instante em que você age com a intenção de acalmar a dor alheia, se o seu empreendimento for feito com pureza de coração, com a genuína vontade de aliviar o sofrimento de uma alma aflita (ainda que ela não reconheça ou não dê ouvidos aos seus alarmes), nesse instante você começará a notar que chamas que ainda permaneciam acesas dentro de sua catedral lentamente se apagam...

Eis o milagre da caridade!

Somente quando trabalhamos pela causa da miséria alheia, aprendemos a curar profundamente as nossas próprias misérias. É um sistema de compartilhamento inteligente, em que, quanto mais se partilha, mais se multiplica. O alívio que traz a Paz é como a multiplicação do pão, de alguns poucos pedaços, alimenta-se a multidão, e ainda são recolhidos cestos do excedente.

Mas ainda não tocamos no tema propriamente dito. Você poderá se perguntar, o que toda essa questão de conhecimento do método nefasto e da consciência da própria cela e das celas adjacentes pode ter a ver com o perdão?

II.            A coisa é mais óbvia do que parece... Ora, se uma alma desesperada e aflita, agindo e reagindo aos estímulos do plano de modo inconsciente, querendo sensações e coisas e depositando valores onde não se deve, acaso vier a agir ou reagir de forma bestial, irracional, como um animal acuado e selvagem (adestrado e programado para fazer exatamente isso), qual o grau de responsabilidade deve-se atribuir àquela pessoa à sua frente? Muitas vezes, algumas almas chegaram a um ponto tão degenerado, que a única coisa que elas ainda podem racionalizar é o perdão. (Sobre o poder do perdão, ver vídeo no link abaixo).

https://youtube.com/shorts/YnRsI9oSyzA?si=c4P7elDRrc5Ok3Mp

O Perdão é algo tão poderoso, é uma luz tão intensa, é um dom que vem de tão alto, que é como se o Sol nascesse bem dentro da nossa cela, espantando ao mesmo tempo todas as sombras, todas as lesmas, pondo abaixo todas as grades, paredes e correntes que desde o princípio pesavam sobre a nossa existência.

O perdão é uma luz que não se guarda no bolso, é um pão que não se come sozinho, para atingir os seus efeitos deve sempre agir em direção ao outro, e no exato instante em que cumpre seus objetivos no seu destino, toda a sua origem é confeitada. É um movimento onipresente, uma flecha de luz que parte em todas as direções, que ilumina o coração do alvo e do arqueiro.

Adicionando finalmente a dimensão da altura nesta nossa ampla-visão da alma, atingimos o próximo estágio da consciência em 3D, em que o antigo prisioneiro, libertado pelas chaves da caridade e do perdão, tendo um sol iluminando seus caminhos, agora escala os muros da prisão, toma o posto do sentinela que fica na torre donde do alto se avista todo o presídio, lugar privilegiado de onde, ao mesmo tempo, se pode descer e sair do esconderijo, indo ao convívio dos cativos, ou subir e contemplar do camarote todas as celas, observar e absorver a lógica penitenciária, padrões de movimento e isolamento, os quais regem todo o funcionamento daquele mundo frio, que ainda é o seu, porém distante.

III.          Ao escolhermos fazer o movimento de subida na torre, para a contemplação das misérias humanas, percebemos que um novo poder se desvela, como uma nova parte da armadura de que vamos nos vestindo para a batalha. Esse poder é o da viagem no tempo e da modificação da história.

A visão do sentinela percorre outra vez caminhos conhecidos, corredores, alas, antigas celas, cubículos escuros de nossa memória. Ao exercermos o poder de relembrar acontecimentos que marcaram a vida de nossa alma, no ato mesmo de recordar revivemos, agora revestidos de uma consciência toda nova, com uma armadura projetada para alguns embates sangrentos, tendo em mãos a chave do perdão e da compaixão pelas misérias alheias, percebemos o surpreendente poder de mudarmos a história que a nossa antiga consciência contava para nossa alma.

Esse poder majestoso, uma dádiva anunciada aos quatro ventos evangélicos, porém por muito poucos aproveitada, é a oportunidade para sanear vidraças estilhaçadas, bancos quebrados, telhas arrancadas, paredes mofadas da catedral. O agente ativo da nossa nova consciência viaja no tempo-espaço da eternidade em que vive a nossa alma, e pode perdoar a si mesmo e a outros, pois entende que tem a capacidade de restaurar para sempre o estrago que nos foi praticado pelos aflitos agentes inconscientes agora já perdoados.

Veja aqui que não se trata de mentir para si próprio, alterar verdades, fingir que determinados fatos não ocorreram. Tudo o que é ato está consumado na eternidade. Nada do que veio à esfera da existência poderá inexistir. Portanto, o que se propõe aqui é explorar outras potências no entorno deste ato, que ainda não foram totalmente realizadas na esfera da existência e que não deixam de ser a periferia verdadeira de um fato. Potências estas prontas para ser consumadas em ato pela nova dotação da consciência, mais compreensiva para abarcar detalhes e possibilidades antes inabarcáveis pela condição outrora menos expandida e mais embrutecida da mesma consciência.

É como se o carpinteiro, anos depois de terminar seu trabalho de transformar madeira em arte, com um novo olhar pudesse notar certas arestas mal-acabadas e formas ainda pouco desenvolvidas. Detendo maiores habilidades do que quando produziu aquela peça, pudesse agora acabá-la com ainda mais dignidade, sem contudo fazer da obra outra coisa senão ainda madeira e arte. O artista da alma não vai atear fogo ao tronco burilado, nem o fazer deixar de existir. Aperfeiçoará, entretanto, os detalhes de uma coisa tida como já acabada, de modo que suas potências possam ser totalmente realizadas. Essa é a beleza do mundo do infinito.

Eis A Oficina da Paz!

 

(Encontraremos ainda oportunidade

para falar com calma

do maior mestre carpinteiro,

aquele motor primeiro,

que nos ensina o ofício de esculpir a alma)

 

(Mais adiante falaremos sobre o mundo fora dos muros da prisão e sua relação com a lenda da Floresta - e o perdão divino sobre o estrago que nós mesmos praticamos – e devemos pedir perdão em nome de nossa antiga consciência, para a Paz com Deus);

A Arte e o Trabalho

 4. A Arte em forma de Trabalho.

“Quem quer música em vez de barulho, alegria em vez de prazer, alma em vez de ouro, trabalho criativo em vez de negócios, paixão em vez de tolice, não encontra lar neste nosso mundo trivial.”

(Hermann Hesse)

O trabalho também é uma forma de arte. Nem todos os trabalhos podem ser considerados arte, mas o amor e o domínio sobre as técnicas empregadas na execução de um trabalho, a inteligência, o nível de empenho exigido para se chegar a determinados graus de maestria, a nobreza do objetivo e o impacto positivo que causam determinados trabalhos são bons indicadores para se considerar um trabalho como obra de arte. Alguns mecânicos, alguns padeiros, alguns pedreiros, alguns veterinários, alguns garis, são verdadeiros mestres. Algumas obras de arte, como uma rua alegre e caprichosamente limpa, não perduram no tempo, algumas obras se escondem por debaixo do capô, algumas se manifestam em saúde, algumas se comem, outras são pisadas e pichadas. Esse tipo de obra de arte em forma de trabalho é consumido pelo uso dos homens e poucas obras permanecem. O valor desse tipo de arte está na beleza da intenção. Os mestres do trabalho diariamente repetem sua arte, que se gasta, pois, a beleza de sua arte é a nobreza da alma manifestada ao trabalhar com amor.

“O trabalho edifica o homem”, adágio muito conhecido. Mas, apenas o trabalho feito com amor edifica. Não é um trabalho em si que edifica algo dentro do homem, mas o amor. É o amor que dá sentido, que confere vida, que tornam nobres os fins pretendidos com o resultado de um trabalho. E o que é edificado no homem? Ora, o edifício da alma!

Uma das estratégias de fabricação da solidão por parte do plano nefasto é retirar o componente vital do amor do trabalho humano. Qualquer homem perde o elã pelo trabalho quando seu ofício não possui o ingrediente de arte que deveria dar o sentido nobre e significativo ao seu trabalho.

Quando esperamos de um trabalho apenas um resultado prático, retirando o componente de amor que poderia transformá-lo em arte, retiramos justamente o componente humano do trabalho. Logo, podemos esperar que qualquer trabalhador seja substituído por um robô, mas não o artista.

Rebaixar a arte em trabalho é um dos meios usados pelo plano para fabricar a solidão da alma e controlar as massas através da comercialização de meios falsos para aliviar (porém nunca curar) essa dor (logo adiante falaremos dos meios falsos vendidos para aliviar a dor da solidão da alma). A cura certamente começa por compreender os mecanismos que nos empobrecem, isolam e nos subjugam. A conscientização acerca desse processo leva ao amadurecimento da nossa relação com a dor.

Um dos principais objetivos de A Oficina da Paz é mostrar ao leitor que é possível fazer um uso racional, inteligente e útil da dor. À medida que amadurecemos nossa dor interior, e suas causas passam a ser entendidas, ela fica à disposição da consciência, para trabalhá-la. Ao obtermos uma consciência acima desta dor, ganhamos poderes sobre ela, e podemos traçar alguns objetivos para a utilização deste poder sapiencial para, em sinal de retribuição pelo alívio alcançado e caridade para com outros aflitos, reverter em mais consciência e Paz ao próximo, que sofre a dor e reage de modo inconsciente aos serviços do plano.

Atingida esta maturidade, aprendemos a identificá-la (a dor) na vida das outras pessoas, é aí que passamos a um nível mais acima na escala de consciência da existência. Conseguimos olhar como de um lugar mais alto nas montanhas a cidade abaixo, e seus percalços.

Nesta recém-adquirida maturidade em relação à dor, proveniente da consciência da solidão fabricada para reger as relações no mundo, o primeiro passo sobre o primeiro degrau se dá quando deixamos de ser apenas um prisioneiro curtindo e lamentando a condição fria e úmida de nossa própria cela, e passamos a notar cuidadosamente o aspecto frio e úmido das celas adjacentes, e após um pouco mais de prática, conseguimos inclusive colocarmo-nos na perspectiva do sentinela que fica no alto da torre da prisão, espreitando todas as celas.

(Sobre espreitar todas as celas e o que isto tem a ver com o perdão, trataremos mais adiante)

Com o estado de consciência posicionado no camarote da contemplação das misérias humanas, é possível ao observador perceber que reina, dentro desta lógica penitenciária, padrões de movimento, e isolamento, que são as condições e causas que levam o nosso mundo interior ao estado de angústia e solidão fabricados pela Engenharia do plano.

Concluindo, o nível superficial das relações pessoais se deve em boa parte às estratégias de isolamento da alma expostas acima, como a degeneração da própria arte em arte-rasa, da transformação do trabalho-arte em trabalho-prático, da artificialização do trabalho humano em trabalho robótico, da superficialização das amizades e das relações familiares.

Amigos são mais amigos por causa da arte, pois amizade é uma arte. Pai e filho ou mestre e discípulo são mais íntimos por causa do ofício ensinado com amor, pois a relação de ensino é uma arte. É próprio da arte a profundidade do oceano. O nível superficial das relações se dá pela transformação do oceano em lago. Mas nossa alma continua ansiando o oceano...

“Não apenas pratique sua arte, mas abra caminho em seus mistérios, pois ela e o conhecimento podem elevar os homens ao divino.”

(Ludwig van Beethoven)

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