quinta-feira, 23 de novembro de 2023

A Arte e o Trabalho

 4. A Arte em forma de Trabalho.

“Quem quer música em vez de barulho, alegria em vez de prazer, alma em vez de ouro, trabalho criativo em vez de negócios, paixão em vez de tolice, não encontra lar neste nosso mundo trivial.”

(Hermann Hesse)

O trabalho também é uma forma de arte. Nem todos os trabalhos podem ser considerados arte, mas o amor e o domínio sobre as técnicas empregadas na execução de um trabalho, a inteligência, o nível de empenho exigido para se chegar a determinados graus de maestria, a nobreza do objetivo e o impacto positivo que causam determinados trabalhos são bons indicadores para se considerar um trabalho como obra de arte. Alguns mecânicos, alguns padeiros, alguns pedreiros, alguns veterinários, alguns garis, são verdadeiros mestres. Algumas obras de arte, como uma rua alegre e caprichosamente limpa, não perduram no tempo, algumas obras se escondem por debaixo do capô, algumas se manifestam em saúde, algumas se comem, outras são pisadas e pichadas. Esse tipo de obra de arte em forma de trabalho é consumido pelo uso dos homens e poucas obras permanecem. O valor desse tipo de arte está na beleza da intenção. Os mestres do trabalho diariamente repetem sua arte, que se gasta, pois, a beleza de sua arte é a nobreza da alma manifestada ao trabalhar com amor.

“O trabalho edifica o homem”, adágio muito conhecido. Mas, apenas o trabalho feito com amor edifica. Não é um trabalho em si que edifica algo dentro do homem, mas o amor. É o amor que dá sentido, que confere vida, que tornam nobres os fins pretendidos com o resultado de um trabalho. E o que é edificado no homem? Ora, o edifício da alma!

Uma das estratégias de fabricação da solidão por parte do plano nefasto é retirar o componente vital do amor do trabalho humano. Qualquer homem perde o elã pelo trabalho quando seu ofício não possui o ingrediente de arte que deveria dar o sentido nobre e significativo ao seu trabalho.

Quando esperamos de um trabalho apenas um resultado prático, retirando o componente de amor que poderia transformá-lo em arte, retiramos justamente o componente humano do trabalho. Logo, podemos esperar que qualquer trabalhador seja substituído por um robô, mas não o artista.

Rebaixar a arte em trabalho é um dos meios usados pelo plano para fabricar a solidão da alma e controlar as massas através da comercialização de meios falsos para aliviar (porém nunca curar) essa dor (logo adiante falaremos dos meios falsos vendidos para aliviar a dor da solidão da alma). A cura certamente começa por compreender os mecanismos que nos empobrecem, isolam e nos subjugam. A conscientização acerca desse processo leva ao amadurecimento da nossa relação com a dor.

Um dos principais objetivos de A Oficina da Paz é mostrar ao leitor que é possível fazer um uso racional, inteligente e útil da dor. À medida que amadurecemos nossa dor interior, e suas causas passam a ser entendidas, ela fica à disposição da consciência, para trabalhá-la. Ao obtermos uma consciência acima desta dor, ganhamos poderes sobre ela, e podemos traçar alguns objetivos para a utilização deste poder sapiencial para, em sinal de retribuição pelo alívio alcançado e caridade para com outros aflitos, reverter em mais consciência e Paz ao próximo, que sofre a dor e reage de modo inconsciente aos serviços do plano.

Atingida esta maturidade, aprendemos a identificá-la (a dor) na vida das outras pessoas, é aí que passamos a um nível mais acima na escala de consciência da existência. Conseguimos olhar como de um lugar mais alto nas montanhas a cidade abaixo, e seus percalços.

Nesta recém-adquirida maturidade em relação à dor, proveniente da consciência da solidão fabricada para reger as relações no mundo, o primeiro passo sobre o primeiro degrau se dá quando deixamos de ser apenas um prisioneiro curtindo e lamentando a condição fria e úmida de nossa própria cela, e passamos a notar cuidadosamente o aspecto frio e úmido das celas adjacentes, e após um pouco mais de prática, conseguimos inclusive colocarmo-nos na perspectiva do sentinela que fica no alto da torre da prisão, espreitando todas as celas.

(Sobre espreitar todas as celas e o que isto tem a ver com o perdão, trataremos mais adiante)

Com o estado de consciência posicionado no camarote da contemplação das misérias humanas, é possível ao observador perceber que reina, dentro desta lógica penitenciária, padrões de movimento, e isolamento, que são as condições e causas que levam o nosso mundo interior ao estado de angústia e solidão fabricados pela Engenharia do plano.

Concluindo, o nível superficial das relações pessoais se deve em boa parte às estratégias de isolamento da alma expostas acima, como a degeneração da própria arte em arte-rasa, da transformação do trabalho-arte em trabalho-prático, da artificialização do trabalho humano em trabalho robótico, da superficialização das amizades e das relações familiares.

Amigos são mais amigos por causa da arte, pois amizade é uma arte. Pai e filho ou mestre e discípulo são mais íntimos por causa do ofício ensinado com amor, pois a relação de ensino é uma arte. É próprio da arte a profundidade do oceano. O nível superficial das relações se dá pela transformação do oceano em lago. Mas nossa alma continua ansiando o oceano...

“Não apenas pratique sua arte, mas abra caminho em seus mistérios, pois ela e o conhecimento podem elevar os homens ao divino.”

(Ludwig van Beethoven)

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